Por quanto se vendem os nossos dados pessoais?

Cada compra, cada emoji, cada comentário feito online contribui para o chamado Big Data, a verdadeira "mina de ouro".

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Uma equipa de investigadores da Amnistia Internacional revelou uma oferta de dados de 1,8 milhões de pessoas por 126,851 euros, por parte da empresa Exact Data. Ou seja, cerca de sete cêntimos por pessoa. Sim, leu bem.

Quanto aos EUA, a mesma instituição tem em seu poder cerca de 200 milhões de contactos que podem ser filtrados através de 450 palavras. Entre elas estão "religião" ou "etnia". E esta é, segundo a Amnistia Internacional, apenas uma no meio de centenas de empresas privadas nos EUA cujo negócio se foca na recolha e venda de dados.

O comércio de dados privados está a tornar-se cada vez mais comum. Quem o diz é Tanya O'Carroll, uma das autoras da investigação. "O enorme avanço do big data na última década permitiu que os data brokers [empresas de comércio de dados] saibam tudo sobre nós", disse ao jornal espanhol El País. "Os dados pequenos e abstratos, que não têm importância por si só, quando cruzados com os 'gostos' no Facebook, por exemplo, têm um grande valor", acrescenta.

E se acha que o pior já foi aqui dito, desengane-se. Segundo a investigadora, um dos aspectos mais preocupantes da situação é mesmo o anonimato desta indústria. "Não é transparente. Sabem muito de nós, mas nós não sabemos nem quem tem os nossos dados, nem sequer o nome destas empresas", diz ainda O'Carroll.

Se lhe dissermos que na Europa existem, pelo menos, 50 data brokers, acredita? Pois. Foram estes os números recolhidos pela Amnistia Internacional. Nos EUA ou mesmo na Ásia é difícil calcular quantos serão. "Centenas", supõe Tanya O'Carroll.


Mas afinal, como funcionam os data brokers?

"É um negócio em que, ou se vendem diretamente os dados, ou estes são cedidos. Se bem que, com a nova directiva europeia, estas empresas são obrigadas a informar o utilizador acerca da cedência de dados a terceiros", alerta Borja González del Regueral, vice-diretor da IE School of Human Sciences & Technology (Madrid), em entrevista ao El País.

Para além da falta de transparência, uma outra (grande) questão é apontada pelo especialista. "O principal problema é que somos nós próprios que temos a responsabilidade de ler o contrato quando cedemos os nossos dados. Mas quem lê 15 páginas cada vez que compra umas calças pela internet? Por isso mesmo, deve ser aumentada a transparência", afirma.

Afinal de contas, não é só nas redes sociais que se recolhem dados pessoais. Qualquer transação, qualquer 'click' no rato em frente a um ecrã de um computador, pode ser alvo deste "novo comércio". E para nos protegermos, não é preciso apenas aumentar a privacidade, mas também a segurança. Álvaro Ortigosa, diretor do Centro Nacional de Excelência em Cibersegurança (CNEC), crê que os usuários devem apontar os endereços de todos os sites aos quais têm cedido dados pontualmente e pedir a exclusão desse sistema. Enquanto não é reformulada a lei (ou criada uma de raiz), esta parece ser mesmo a única – ou, pelo menos, a mais viável – medida de proteção dos nossos dados. Caso contrário, seremos apenas mais uns cêntimos naquela mina de ouro chamada Big Data.

 

Fonte: Visão


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