Uber: os motoristas que cobram a viagem “por fora”

Há motoristas da Uber que propõem aos clientes viajar sem utilizar a aplicação, pagando o valor mínimo definido pela própria empresa. Usam o nome da Uber, mas ficam com o dinheiro todo para eles.

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A viagem é agendada na manhã do próprio dia por telefone. O encontro será depois de almoço numa rua do centro de Lisboa. Cinco minutos são suficientes para definir tudo. “Está combinado, pronto. É assim: o ideal é ligar-me algum tempo antes, ou de véspera. Mas se não conseguir, não há problema: liga-me na mesma, diz onde é que está e, desde que eu me encontre a dez minutos de distância de si, vou buscá-lo a qualquer lado e levo-o”, começa por explicar “António” (nome fictício), motorista da Uber há pouco mais de cinco meses.

 

E qual o valor a pagar?

“O que eu normalmente digo aos clientes é: use a aplicação [da Uber] para ver quanto é que a viagem lhe vai custar. Depois, desliga a aplicação da Uber, liga-me diretamente, e só terá de pagar o valor mínimo da viagem. Ou seja, se a viagem lhe custar entre oito e dez euros, só paga os oito. Está a perceber? Se não tiver a aplicação – e há muita gente que não tem, claro –, eu mesmo a ligo e vemos logo o valor quando entrar no carro. Não tem nada que enganar”, acrescenta.

 

Pouco antes da hora agendada, o telefone toca:

– “Estou? É o ‘António’, da Uber. Olhe, era só para lhe dizer que estou aqui à sua espera na rua, está bem? Até já, até já…”

No telefonema, “António” explica qual o modelo e a matrícula do carro. O motorista aguarda-nos no exterior e, à chegada, abre prontamente a porta de trás. Lá dentro, a aplicação da Uber está desligada, mas o telemóvel continua pousado sobre o tablier. “Ufffff, estava a ver que não chegava aqui a tempo! É que antes de vir ter consigo fui levar uns turistas a Almada — queriam ir até ao Cristo Rei. Mas cheguei, pronto. E então, está tudo bem para si? O ar condicionado está bem assim? E o rádio, quer que mude?”, questiona, num trato que é habitualmente o dos motoristas da Uber.

 

Mas esta não é uma viagem da Uber.

– De manhã nem lhe perguntei, oh senhor Tiago: como é que conseguiu o meu contacto? [Olha pelo retrovisor para o banco de trás] Hmmm, não me recordo de si…
– Foi uma amiga, a ‘Luísa’, quem me aconselhou ligar-lhe.
– Ah, sim! É normal. Como lhe disse, ligue sempre que precisar de mim.
– Mas isto não é perigoso para si, fazer viagens fora da Uber?
– É, é. Ora imagine lá você que alguém me denuncia à Uber: fico sem trabalho na hora! Mas até agora não tive problemas.
– E a polícia, incomoda-o muito?
– Bem, se a polícia me perguntar o porquê de você ir no banco de trás, digo que estou a dar boleia a um amigo, e que só vai aí porque lhe doem as costas. E doem, não doem?… [Risos] Não é crime dar boleia a um amigo.

 

"Mas o problema disto tudo é a Uber: a maior parte dos serviços [no centro de Lisboa] que faço não chegam nem a dois euros e meio. A Uber fica logo com 25% e o patrão com 50%. Isto é uma treta, é o que é! Ando a matar-me todo para isto?! É cansativo, muito cansativo, e às vezes nem consigo tirar o ordenado mínimo ao final do mês. Mas estamos a brincar, não!?”
"António", motorista da Uber


“António” não é o proprietário do carro.

Apenas trabalha para uma empresa parceira da Uber. Mas o patrão não sabe que este faz viagens “por fora”. “Não sabe, não. E quanto menos ele souber, melhor.” Mas não fica desconfiado por “António” desligar a aplicação de vez em quando? “Não, nada. Eu posso ter a aplicação desligada se quiser. E caso ele me pergunte a razão pela qual a desliguei, digo-lhe que fui à casa de banho, que fui tomar um café ou, até, que saí do sítio onde me encontrava para ir para um que tivesse mais clientes. Posso perfeitamente ir à procura de clientes… É normal”, explica.

Uma das razões que o levou a trabalhar “por fora” — a expressão é do próprio — foi o suposto incumprimento do patrão. Mas também culpa a própria Uber. “Há coisas que o patrão me faz e que eu não gosto, pronto. Ele acordou pagar-me à semana e não cumpre. Mas o problema disto tudo é a Uber: a maior parte dos serviços [no centro de Lisboa] que faço não chegam nem a dois euros e meio. A Uber fica logo com 25% e o patrão com 50%. Isto é uma treta, é o que é! Ando a matar-me todo para isto?! Este carro está comigo todos os dias. No mínimo, trabalho 16 horas por dia — às vezes mais. É cansativo, muito cansativo, e às vezes nem consigo tirar o ordenado mínimo ao final do mês. Mas estamos a brincar, não!?”, atira, indignado.

 

Desde que começou a trabalhar “por fora”, tudo se alterou. A Uber “nem desconfia”.

“Certo dia pensei: tenho que dar a volta a isto. Então, dei o meu contacto a 50 clientes que viajaram comigo na Uber. E hoje tenho uns 20, 25. Regularidade? Faço este tipo de viagens por fora todos os dias. Sabe, sou motorista mas também faço outras coisas. Agora quero ver se consigo juntar mais algum para arrendar uma casinha. Eu trabalhava horas e horas sem fazer a ponta de um chavo. Às vezes só tinha dois ou três serviços – os tais de dois euros e meio – no espaço de oito horas. Isto pela Uber. Fora da Uber consigo compensar isso, pronto”, explica.


"João" e "Carlos", mais um caso diferente

O contacto de “João” (nome fictício) surge num cartão todo preto e com o logótipo da Uber que entrega aos clientes no final de cada viagem. É o próprio quem atende. “Ligo-lhe já de seguida, pode ser? Estou só aqui a acabar uma viagem…” Ao fim de cinco minutos, liga mesmo. É final da manhã. A viagem seria agendada para a tarde. “Não posso, não posso. Esta semana estou só a fazer manhãs até à hora de almoço. Mas fazemos assim: vou dar-lhe o telefone do ‘Carlos’, que trabalha comigo, é ele que conduz este carro à tarde, e você combina tudo com ele, pode ser?

“Carlos” (nome fictício) não atende. Insistimos. “Desculpe, estava aqui a dormir. Foi o ‘João’ que lhe deu o meu telefone, é?”, responde ensonado. O encontro fica agendado para um centro comercial nos subúrbios de Lisboa. Mas, ao contrário do que aconteceu com “António”, “Carlos” pede que o contactem “uma meia horinha antes ou assim”, porque pode “estar com clientes a essa hora”. Por precaução, o contacto foi feito uma hora antes. “Ah, está despachado, é? Está com sorte: estou mesmo aqui a passar a Segunda Circular. Daqui a cinco minutos estou aí.”

 

Carro não aparenta ser da Uber

O carro que se aproxima não aparenta ser da Uber: é mais antigo do que habitualmente, a pintura está em mau estado, o interior range a cada buraco na estrada e os estofos estão visivelmente gastos. “Carlos” estaciona e faz-nos sinal para entrar.

– Mas este carro é da Uber?!
– É, é. É o carro que eu e o ‘João’ utilizamos à vez. O meu patrão é que anda num melhor. Mas ele é motorista da Uber Black.
– Pois, é que não aparenta nada…
– Mas é, mas é. Acredite.

Escuta-se o GPS: “Vire à direita”. “Carlos” confunde-se e responde, sobressaltado: “À direita?!”. É motorista da Uber há pouco tempo. “Era emigrante, mas voltei a Portugal. E como não tinha mais nada… Olhe, foi o primeiro trabalho que calhou. Mas nunca fui motorista. E ainda me confundo um bocadinho aqui em Lisboa…” A “confusão” é notória: pouco depois, quase se engana no trajeto [utiliza um GPS que não é o da Uber — pois da aplicação nem há sinal no telemóvel] e segue em direção à ponte 25 de Abril. A hora era de ponta. “Carlos” emenda o erro no último instante, pisando um traço contínuo.

 

Divisão de lucros com o patrão, só a Uber é que não sabe

É o próprio “Carlos” a tomar a iniciativa da conversa. “Mas conhece o ‘João’, é? A gente vai trocando, vai trocando: agora estou eu de noite e ele de manhã, para a semana é ele de noite e eu de manhã. Mas ligar para um ou para outro é a mesma coisa. Alguém vai atender e o vai buscar.” Mas porque é que se oferecem para serviços “por fora”? A resposta não é muito diferente da de “António”.

Contudo, neste caso, o patrão, ou seja, a empresa parceira da Uber, sabe de tudo. E lucra. “Há motoristas que não fazem isto. Mas nós fazemos porque estamos à vontade um com o outro — e com o patrão. A Uber fica sempre com 25% e o patrão com 50%. Assim, o patrão fica na mesma com os 50%, mas o restante fica comigo ou com o ‘João’. Está a entender? Aqui ganha-se muito mal. Às vezes trabalho 12 horas e ganho pouco mais do que o ordenado mínimo. Sempre dá para ganhar mais qualquer coisa, não é?”

 

Nunca teve problemas com a Uber por causa deste esquema , garante.

“Não, nunca. Nem desconfiam. O patrão é que no início embirrava. Porquê? Ele tem uma aplicação e vê onde é que está o carro, se a aplicação [da Uber] está ligada ou não, se tem clientes ou não. Mas lá chegámos a acordo”, explica, deixando entender que a iniciativa foi dos motoristas, “João” e “Carlos”, e que só depois a empresa parceira teve conhecimento e aceitou.


"Os casos em que estes operadores procuram divulgar os seus demais serviços a utilizadores da Uber são infrequentes. Todas as situações excepcionais em que existe uma tentativa de subversão fraudulenta do sistema da Uber são devidamente analisadas pela nossa equipa de operações.”
Fonte Oficial da Uber

 

Associações e Uber recusam responder a perguntas colocadas pelo Observador

O Observador contactou para esta reportagem as duas associações que em Portugal trabalham com a Uber e, sobretudo, com parceiros desta: a ANTUPE, Associação Nacional de Transportadores Utilizadores de Plataformas Eletrónicas, e a ANPPAT, Associação Nacional de Parceiros das Plataformas Alternativas de Transportes. Ambas garantiram estar surpreendidas com este esquema onde motoristas tiram à Uber para “ganhar mais qualquer coisa”, negando ter conhecimento de quaisquer casos. No entanto, recusaram responder às questões enviadas pelo Observador.

Quem também não respondeu a qualquer pergunta foi a própria Uber. No entanto, a empresa reagiu à situação em comunicado. “A Uber é uma plataforma que liga pessoas que querem viajar nas cidades a operadores de mobilidade disponíveis para as transportar. Em Portugal, estes operadores de mobilidade são devidamente licenciados de acordo com a legislação em vigor. Este tipo de empresas já operava no setor em Portugal antes da chegada da Uber e hoje a sua atividade existe para além do âmbito da Uber”, começa por explicar a empresa. E acrescenta, a propósito do esquema (que descreve como “situações excecionais” de “subversão fraudulenta”) onde se vê incluída: “Os casos em que estes operadores procuram divulgar os seus demais serviços a utilizadores da Uber são infrequentes — isto porque os utilizadores, que esperam viagens fiáveis e confortáveis quando recorrem à Uber, tendem a atribuir pontuações mais baixas a estes motoristas nestas situações pouco comuns. De resto, todas as situações excepcionais em que existe uma tentativa de subversão fraudulenta do sistema da Uber, e que por isso violam as nossas regras da comunidade, são devidamente analisadas pela nossa equipa de operações.”


A viagem com “Carlos” está quase no fim.

Ao contrário de “João”, “Carlos” não possui um cartão onde se identifique como motorista da Uber. “Não tenho. Normalmente faço muitos serviços à noite, em discotecas e assim. E às vezes são os próprios clientes que dizem que não têm a aplicação e me perguntam se podem pagar em dinheiro. O que é que respondo? ‘Tá bem, vamos…’, é o que respondo.”

Ao telefone acordara-se o pagamento de dez euros. No entanto, o motorista usa desde o início uma espécie de “taxímetro” no telemóvel, bem visível no tablier — curiosamente, está tão mal encaixado que cai diversas vezes durante a viagem e obriga o motorista a parar para o recolocar. “Está a ver?… Isto aqui é o ‘Metre’, é uma aplicação que você pode descarregar e tudo. Como há pessoas que não têm a aplicação da Uber para calcular o valor [mínimo] da viagem, nós usamos esta app. E fica certinho nos dez euros, está a ver? Esta quantia que vai pagar comigo, num táxi seria quase o dobro ou mais. Por isso é que vale a pena. Mas quer sejam dez, oito, seis euros, tanto faz, vou sempre ganhar mais qualquer coisinha do que ganharia na Uber.”

– E fatura, passa? Vou precisar de uma…
— Não, não, isso é que não.

 

Voltamos a “António”.

O trato é diferente — o de “Carlos” não aparentava nada o do típico motorista da Uber. “Fatura? Claro que sim, claro que sim. Você deixa-me o seu e-mail e eu envio-lhe uma fatura mal chegue a casa e ligue o computador. Vai é como ‘serviços prestados’, pode ser?” Hoje, e cada vez mais, a maioria dos serviços que presta são fora da Uber. Mas utilizando o mesmo carro. “Agora vou deixá-lo aqui e tenho que estar daqui a quinze minutos num colégio. Tenho um cliente que foi trabalhar para fora e que me pediu para todos os dias ir deixar e buscar os filhos à escolha. Acordei com ele um preço ‘simpático’ — que ele paga ao final do mês — e sei que todos os dias à mesma hora tenho que desligar a aplicação para ir buscar os miúdos ao colégio“, explica.

 

Corrigir os "problemas" da Uber

“António” diz-se “muito requisitado”, mas não pensa deixar a Uber e tornar-se motorista particular. O que quer mesmo é ser “útil” a quem precisar dele — e corrigir os “problemas” da Uber. “O problema da Uber é que nem sempre tem motoristas de confiança. Eu sei que sou de confiança, mas outros não são. Os clientes que viajam comigo na Uber gostam de mim e são eles que me procuram, não sou eu que os procuro a eles. Acredite, que é verdade! Olhe, vou contar-lhe uma história que me aconteceu no outro dia: estava eu refastelado na cama, e ligam-me umas meninas às três e tal da manhã. ‘Senhor ‘António’, estamos aqui em Santos e só queremos ir consigo e com mais ninguém, só confiamos em si’, dizem-me elas. E pronto, lá me vesti e em meia hora cheguei lá. Nem é pelo que ganhei na viagem; fui lá porque quero ser útil”, explica.

Às “meninas” de que fala, foi o próprio ‘António’ a dar-lhes o contacto. Mas às vezes o pedido vem do cliente — como o próprio faz por recordar-nos volta e meia durante a viagem. “Esta é talvez a situação mais engraçada que me aconteceu desde que estou na Uber. Fui buscar um senhor ao Museu do Oriente. Pela Uber, pela Uber… E levei-o a um restaurante. E diz-me ele no final: ‘Ouça lá, dê-me o seu contacto. Quero que me venha buscar depois do jantar…’ Deixei-lhe o contacto e ligou-me quando acabou de jantar. Lá fui buscá-lo. ‘Sabe, as pessoas às vezes tratam-me por senhor embaixador, mas eu não gosto que me tratem assim…”, diz-me ele. E pensei cá para mim: ‘Eh, lecas!’ Afinal, o homem era embaixador de Portugal no estrangeiro. E sempre que está em Lisboa, liga-me”, explica.

 

O exemplo de um outro motorista de seu nome "Nuno"

O Observador tentou contactar vários motoristas que oferecem serviços particulares em viaturas de empresas parceiras da Uber durante as viagens — muitas vezes à revelia de ambas; outras com o consentimento das parceiras, que também lucram com o esquema. Muitos destes motoristas não se encontravam disponíveis para fazer viagens no próprio dia, sugerindo que se agendassem os mesmos. “Nuno” aceitou o serviço. A viagem ficou agendada para as 16h15, sendo a recolha junto de um Ministério, em Lisboa. Quinze minutos depois da hora o telefone toca: “Estou? Olhe, estou um bocadinho atrasado, apanhei um acidente na A5, mas daqui a 10 minutos estou aí. Espera? É rápido…” Desliga prontamente, sem nunca se desculpar pelo atraso. Esperámos. E esperámos. E esperámos. “Nuno” não atendia o telemóvel nem devolvia a chamada. Às 17h30 atendeu.

— “Olhe, desculpe lá. Mas entretanto apanhei aqui um casal de turistas que queria ir para o Cabo da Roca e esqueci-me de si…”

 

Fonte: Observador


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